A atuação do deputado estadual João Henrique Catan (PL) ao longo de 2025 expôs uma contradição cada vez mais evidente entre o discurso público adotado pelo parlamentar e sua prática efetiva dentro da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Embora se apresente como um dos principais expoentes do conservadorismo no Estado e mantenha uma retórica constante de enfrentamento à esquerda, os registros oficiais do Legislativo mostram um alinhamento frequente de Catan com a bancada do PT em votações de projetos de autoria do Poder Executivo.
Levantamento realizado a partir do Sistema de Gestão de Proposições Legislativas da Assembleia Legislativa aponta que, em 2025, o Governo do Estado protocolou 40 Projetos de Lei no Parlamento. Desses, 37 foram efetivamente votados em plenário. Em 33 dessas votações nas quais João Henrique Catan registrou presença, o deputado acompanhou o posicionamento do PT em pelo menos 23 ocasiões.
Os dados mostram que o parlamentar do PL votou de forma convergente com deputados petistas como Gleice Jane, Pedro Kemp e Zeca do PT em uma série de matérias consideradas centrais da agenda do Executivo estadual. Entre elas estão projetos que instituíram fundos públicos, alteraram legislações vigentes, autorizaram doações de imóveis do Estado a municípios, ampliaram programas sociais e promoveram mudanças em carreiras do funcionalismo público.
Um dos exemplos é o Projeto de Lei que instituiu o Fundo Rotativo Penitenciário, aprovado em dezembro de 2025, no qual Catan votou “sim” ao lado da bancada do PT. O mesmo ocorreu em projetos que autorizaram a doação de imóveis estaduais a municípios como Miranda, Coxim e Cassilândia, todos aprovados com votos favoráveis do deputado do PL e dos parlamentares petistas.
O alinhamento também se repetiu em propostas de forte impacto social, como a criação de programas voltados à agricultura familiar, apoio à mulher trabalhadora, assistência social e políticas de cuidado. Em todas essas matérias, João Henrique Catan acompanhou integralmente os votos do PT, mesmo sendo pautas frequentemente criticadas por setores conservadores que cobram uma atuação mais restritiva do Estado.
Em projetos de operação de crédito, o comportamento também chamou atenção. Em matérias que tratavam de empréstimos junto ao Banco do Brasil e ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, o deputado votou “não” em consonância com a bancada petista, reforçando que a convergência não se limitou a votos favoráveis, mas também a posicionamentos estratégicos contrários.
Esse histórico legislativo contrasta com a imagem pública construída por Catan fora do plenário. O deputado participa de uma marcha liderada por Nikolas Ferreira, em um gesto simbólico de alinhamento com a ala mais ideológica do conservadorismo nacional. No entanto, a postura combativa exibida em atos políticos e nas redes sociais não encontra correspondência consistente na prática parlamentar registrada ao longo de 2025 no estado quando se trata de votações.
As críticas ao deputado se intensificaram ainda mais após polêmicas envolvendo gastos elevados com restaurantes de alto padrão, diárias em hotel turístico em Bonito e despesas frequentes com combustível em posto onde atua profissionalmente como advogado de uma ação. Os episódios levantaram questionamentos sobre o uso de recursos públicos e colocaram em xeque o discurso de austeridade e moralização da política defendido pelo parlamentar.
Para parte do eleitorado conservador, o contraste entre discurso e prática fragiliza a credibilidade política de João Henrique Catan. A repetição de votos alinhados ao PT em projetos do Executivo estadual alimenta a percepção de que o deputado adota uma postura ideológica nas redes, mas atua de forma pragmática e alinhada ao governo quando está em plenário.
Os dados utilizados na análise são públicos e constam no portal oficial da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Eles revelam que, em 2025, a atuação de João Henrique Catan esteve marcada por uma distância significativa entre a retórica conservadora que sustenta seu capital político e as decisões efetivamente tomadas no exercício do mandato.

