Search

De “nova política” a velha prática: Contar se acomoda no colo de Azambuja

Compartilhe nas redes sociais

A filiação de Renan Contar ao PL, confirmada nesta terça-feira (2), não é apenas um movimento partidário: é a guinada definitiva de um político que construiu sua carreira atacando justamente o grupo ao qual agora se submete. O ex-deputado, que em 2018 surfou na onda bolsonarista com um discurso inflamado contra “a velha política” e fez de Reinaldo Azambuja um de seus principais alvos, hoje aceita integrar o projeto comandado pelo ex-governador sem oferecer ao eleitor qualquer explicação consistente sobre essa mudança de rota.

O discurso nas redes sociais veio embalado em frases grandiosas sobre “liberdade”, “justiça” e “homens e mulheres de bem”, mas evitou o ponto central: o que levou o Capitão Contar, antes crítico duro do tucanato e de Azambuja, a se abrigar justamente no partido presidido por ele no Estado? O apelo à defesa da Constituição e ao “equilíbrio entre os poderes” soa genérico demais para quem, no passado recente, se apresentava como alternativa radical a tudo o que hoje aceita como aliado.

À primeira vista, a movimentação parece menos um gesto de coerência ideológica e mais um cálculo de sobrevivência eleitoral. De olho na segunda vaga ao Senado, Contar tenta reposicionar sua imagem dentro do campo bolsonarista, mesmo que isso signifique dividir palanque e projeto com a mesma liderança que, anos atrás, simbolizava para ele o sistema a ser combatido. A mensagem ao eleitor que acreditou naquele discurso anticorrupção é clara: as prioridades mudaram.

Do outro lado, o próprio Azambuja não entrega nada de graça. Como presidente estadual do PL, já avisou que observará as pesquisas antes de carimbar qualquer candidatura. Ou seja: Contar entra na fila, oferece seu capital político ao projeto do ex-governador e ainda depende do aval de quem ele passou anos acusando. A cena ilustra bem o estágio atual da direita em Mato Grosso do Sul: muitos discursos inflamados, pouca disposição de bancar coerência até o fim.

No fim das contas, o episódio revela um Contar menos capitão de ruptura e mais soldado de conveniência. O eleitor que apostou em 2018 num “outsider” anti-sistema agora assiste ao mesmo personagem pedindo espaço sob o guarda-chuva de quem um dia foi tratado como inimigo político. Se há um “projeto de país” por trás desse movimento, ele ficou em segundo plano. O que aparece na frente, por enquanto, é só o velho projeto de poder.