O deputado estadual João Henrique Catan (PL) destinou R$ 419.840,00 em recursos públicos do seu gabinete para a contratação de uma agência de comunicação ligada a amigos pessoais. Os pagamentos foram realizados por meio da rubrica de divulgação da atividade parlamentar, utilizada para custear serviços de comunicação institucional.
A empresa beneficiada é a Bold Marketing e Produções Audiovisuais LTDA, que tem como sócios Bruno Daros Alves e Fernando Daris Alves, ambos amigos de infância do parlamentar. A cronologia das contratações chama atenção. A empresa foi criada em 29 de setembro de 2023 e começou a emitir notas fiscais para o gabinete de Catan pouco mais de um mês depois, em 8 de novembro de 2023. A última nota registrada é recente, datada de 4 de agosto de 2025.
Não se trata de um pagamento pontual ou isolado, mas de uma relação contratual contínua, que se estendeu por quase dois anos e somou quase meio milhão de reais em verbas públicas.
Outro ponto que levanta questionamentos é a ausência de histórico público da empresa. Não há portfólio de serviços conhecido, redes sociais ativas, site institucional ou telefone de contato disponível para contratação. Além disso, o endereço registrado da Bold Marketing abriga outra empresa do mesmo ramo, a Wepulse Comércio e Serviços, o que gera dúvidas sobre a estrutura, a autonomia e a capacidade operacional da contratada.

Os valores pagos são elevados para serviços de divulgação parlamentar, sobretudo quando direcionados a uma empresa recém-criada à época do início das contratações e sem presença pública verificável no mercado.
O episódio ganha peso político diante do discurso adotado pelo próprio deputado. Filiado ao PL e alinhado à direita, João Henrique Catan costuma criticar gastos do governo estadual e se apresenta como defensor da moralidade, da austeridade e do uso responsável do dinheiro público.
Na prática, porém, a destinação de recursos do gabinete para uma empresa ligada a amigos pessoais, criada pouco antes do início das contratações e sem histórico público comprovado, expõe uma contradição evidente entre o discurso e a prática administrativa.
Ainda que a contratação, por si só, não configure automaticamente ilegalidade, o conjunto dos fatos impõe questionamentos legítimos sobre coerência, ética e transparência no uso de recursos públicos.
Deputado João Henrique Catan torra quase R$ 55 mil em combustível — o suficiente para rodar 100 mil km
Além dos gastos com a agência de comunicação ligada a amigos pessoais, os registros oficiais indicam que o deputado João Henrique Catan também utilizou recursos públicos de forma desproporcional com combustíveis entre janeiro e outubro do ano passado. Nesse período, Catan gastou R$ 54.974,00 em diesel, gasolina e etanol por meio da verba indenizatória do gabinete.
O montante chama atenção não apenas pelo valor absoluto, mas pela dificuldade de justificar administrativamente o volume de consumo. Convertido em quilometragem média, o total permitiria rodar cerca de 99 mil quilômetros, o que exigiria deslocamentos superiores a 300 quilômetros por dia ao longo de dez meses, incluindo fins de semana, feriados e dias sem agenda pública registrada.
A desproporção se torna ainda mais evidente quando se observa a concentração das despesas. Do total gasto com combustíveis, R$ 45.854,86 — aproximadamente 84% — foram pagos a um único fornecedor, o Posto Rui Barbosa LTDA, em Campo Grande. Em análises de controle e auditoria, a concentração incomum de gastos em apenas um estabelecimento costuma ser tratada como sinal de alerta, sobretudo quando envolve recursos públicos.
O episódio contrasta diretamente com o discurso público do parlamentar. Nas redes sociais, Catan costuma se apresentar como defensor da austeridade e da economia no uso do dinheiro público. Os dados oficiais, porém, indicam um padrão de consumo elevado e incompatível com a imagem de rigor fiscal que ele projeta.

Somados, os gastos com a agência de comunicação ligada a amigos pessoais e o consumo expressivo de combustíveis ampliam os questionamentos sobre a coerência entre discurso e prática. Não se trata de fatos isolados, mas de um conjunto de despesas que, analisadas em conjunto, levantam dúvidas legítimas sobre critérios, prioridades e responsabilidade no uso de verbas públicas.

