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Deputado João Henrique Catan torra quase R$ 55 mil em combustível — o suficiente para rodar 100 mil km

Com o valor gasto, seria possível dar quase três voltas completas no Brasil e percorrer um quarto da distância entre a Terra e a Lua.

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A política sul-mato-grossense sempre conviveu com contradições, mas poucas são tão gritantes quanto a que envolve o deputado estadual João Henrique Catan (PL-MS). Defensor ferrenho da redução do Estado, da austeridade fiscal e da moralidade pública, Catan posou — e ainda posa — como uma das vozes mais contundentes da direita no Mato Grosso do Sul. O discurso, porém, não se sustenta diante dos números da sua própria verba indenizatória.

Entre janeiro e outubro deste ano, o parlamentar torrou R$ 54.974,00 em combustíveis — somando diesel, gasolina e etanol. O valor é tão fora da curva que desafia qualquer justificativa administrativa e lança sérias dúvidas sobre o uso criterioso dos recursos públicos que ele mesmo promete defender.

A matemática da incoerência

Transformar esses quase R$ 55 mil em quilometragem expõe a dimensão do problema:
são mais de 99 mil quilômetros possíveis com o montante gasto.

Noventa e nove mil quilômetros.
O número não é apenas alto — é absurdo.

Para efeito de comparação:

  • o perímetro do Brasil tem cerca de 30 a 35 mil km;
    → o valor gasto por Catan permitiria dar quase três voltas no país.
  • a distância da Terra até a Lua é de 384 mil km;
    → o combustível bancado pelo contribuinte cobre 1/4 desse trajeto.
  • em 304 dias (de janeiro a outubro), isso exigiria média de
    326 quilômetros percorridos todos os dias,
    incluindo feriados, domingos e dias sem agenda pública registrada.

É uma quilometragem digna de motorista de caminhão de rota federal — não de um gabinete parlamentar estadual.

O detalhe que levanta suspeitas: R$ 45.854,86 em um único posto

Do total gasto, R$ 45.854,86 — ou seja, 84% de toda a despesa com combustíveis — foram pagos a apenas um estabelecimento: o Posto Rui Barbosa LTDA, em Campo Grande.

E um ponto chama atenção:
o deputado segue o proprietário do posto em seu perfil pessoal no Instagram, indicando relação de proximidade.

Não se trata de acusação de ilegalidade. Mas, diante de um gasto tão expressivo e concentrado em apenas um fornecedor, o contexto exige questionamento, ainda mais considerando o discurso de Catan de “moralizar” as contas públicas.

Em qualquer auditoria séria, concentração incomum de despesas e vínculos pessoais com fornecedores são elementos clássicos de alerta.

A hipocrisia explícita: no Instagram, Catan faz vídeo dizendo gastar centavos — enquanto sua verba explode em combustíveis

A contradição fica ainda mais gritante quando se observa o comportamento público do parlamentar.

Em seu Instagram, Catan aparece de terno, gravata e patinete elétrico, promovendo uma suposta alternativa barata de mobilidade. No vídeo, ele afirma que é possível se locomover gastando “0,42 centavos para andar 60 km”. O discurso é de eficiência, modernidade e economia — uma aula de “austeridade digital”.

Mas a realidade desmente o teatro:
o mesmo deputado que diz gastar centavos para rodar 60 km torrou quase 55 mil reais de combustíveis em menos de um ano.

O deputado que sugere que o cidadão comum deveria buscar alternativas baratas para se locomover é o mesmo que abastece seu gabinete com uma quantidade que permitiria cruzar o Brasil diversas vezes.

Enquanto grava vídeos vendendo um deputado econômico, o extrato oficial mostra um parlamentar que consome combustível como poucos e que, na prática, opera uma rotina que não combina com o discurso que ostenta nas redes sociais.

O contraste é tão explícito que dispensa interpretação:

se o patinete realmente fosse a grande alternativa barata, por que gastar 54 mil reais de janeiro a outubro?

O liberalismo de vitrine e a prática da velha política

O problema aqui não é técnico, é moral.
Catan construiu sua imagem com:

  • críticas aos gastos do Estado,
  • discursos contra desperdício,
  • defesa da máquina pública enxuta,
  • e ataques constantes à esquerda por suposta irresponsabilidade fiscal.

Mas sua própria verba indenizatória mostra:

  • gasto excessivo,
  • prática incompatível com a retórica,
  • concentração estranha de despesas em um posto específico,
  • e uma quilometragem que não resiste a qualquer análise séria.

O discurso é de Estado mínimo.
A prática é de combustão máxima.