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Embaixador do Irã agradece posição “valorosa” do Brasil e promete retaliação “sem limitações” contra os EUA

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Em meio à escalada militar que já dura quatro dias e ceifou centenas de vidas, incluindo a do líder supremo iraniano, o embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, utilizou uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira (2) para estabelecer dois pontos fundamentais da posição de Teerã: um agradecimento público ao governo brasileiro pela condenação aos ataques e um recado firme de que as retaliações contra os Estados Unidos e Israel prosseguirão “sem nenhuma limitação” até que os agressores recuem .

Recebendo jornalistas na sede da embaixada em Brasília, Nekounam classificou como “valorosa” a posição adotada pelo Itamaraty. O governo brasileiro, por meio de nota oficial, condenou os “atos de agressão” perpetrados por EUA e Israel contra o território iraniano no último sábado (28) . Para o diplomata, a manifestação de Brasília transcende a mera formalidade diplomática e alinha-se a princípios fundamentais do direito internacional.
“Vemos essa ação da parte do governo do Brasil como uma ação valorosa que dá atenção aos valores do ser humano, soberania, integridade territorial e independência dos governos”, declarou Nekounam, enfatizando que o agradecimento é extensivo ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva .

O embaixador fez questão de separar o canal de diálogo com o Brasil das tensões com os norte-americanos. “Nossas conversas com o Brasil não têm nada a ver com os EUA”, afirmou, sinalizando que a relação bilateral, especialmente no campo comercial, deve permanecer estável apesar do conflito . Ele expressou a expectativa de que a guerra tenha efeitos mínimos sobre o comércio de produtos do agronegócio entre os dois países, embora tenha admitido que os impactos econômicos ainda precisam ser avaliados .

“Campo de batalha” e o direito de resposta

Se o tom foi cordial em relação ao Brasil, a mensagem direcionada aos Estados Unidos foi de inflexibilidade e determinação bélica. Nekounam descartou qualquer possibilidade de negociação no atual contexto, afirmando que as conversas sobre o programa nuclear que estavam em curso foram usadas como uma “farsa” por Washington para encobrir o que classifica como uma tentativa de “mudança de regime” .

“Usaram as negociações como uma farsa. De forma explícita, eles manifestaram que não buscam um acordo nuclear, eles buscam mudança de regime”, acusou o diplomata, referindo-se à ofensiva que resultou na morte do aiatolá Ali Khamenei e de altos comandantes militares .

Ao ser questionado sobre os próximos passos do Irã, Nekounam foi enfático: a resposta será definida “no campo de batalha” e não há limites para a retaliação enquanto durarem as agressões . “Não há nenhuma limitação e restrição sobre nossas respostas e retaliações conforme os ataques da parte dos EUA e do regime sionista. Nós vamos responder da mesma altura. Até que quem nos atacou recue, continuaremos nossos atos de defesa”, afirmou .

O embaixador justificou a continuidade das ações militares como um direito legítimo de defesa, mencionando especificamente o bombardeio contra uma escola para meninas em Minab, que, segundo ele, matou mais de 170 alunas. “O governo do Irã nunca vai deixar de defender os direitos dessas alunas”, declarou, classificando o ataque como “criminoso” .

Críticas a Trump e a geopolítica regional

Nekounam também dirigiu duras críticas ao presidente dos EUA, Donald Trump, afirmando que o líder norte-americano “pensa que é o rei do mundo”, mas que seus “esforços militares não terão resultados” . Em uma referência a polêmicas que rondam o ex-presidente, o embaixador ironizou ao dizer que o mundo “tem muito mais valor do que ser administrado pelos reis envolvidos nos arquivos do Epstein” .

Em relação à dimensão regional do conflito, o diplomata buscou tranquilizar os países vizinhos ao Irã. Ele afirmou que não há “desentendimentos” com nações como Arábia Saudita, Kuwait ou Emirados Árabes Unidos, esclarecendo que os ataques iranianos têm como alvo exclusivamente “as bases militares dos EUA e centros do regime sionista” localizados nesses territórios .

No entanto, fez um alerta direto a esses governos: “Quando uma base militar é usada para atacar nosso país, claramente será atacada e terá respostas. Esses países precisam pressionar os países donos dessas bases militares a desativá-las” .

Sobre o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas de petróleo mais vitais do mundo, Nekounam afirmou que a medida não foi uma surpresa, mas sim uma consequência anunciada. “O nosso líder já tinha alertado de forma veemente: se atacar, vai acontecer uma guerra regional. Infelizmente eles começaram os ataques”, justificou .

Ao final da coletiva, o embaixador reforçou a resiliência do país diante de décadas de sanções e conflitos. “O Irã está pronto para as piores situações possíveis. Nós nos defenderemos até que quem nos atacou recue”, concluiu, sintetizando a postura de confronto que Teerã promete manter nos palcos militar e diplomático .