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Irmã de delegado da PF expulso foi investigada por elo com PCC

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A saída dos Estados Unidos do delegado Marcelo Ivo de Carvalho, da Polícia Federal, após solicitação das autoridades americanas, em meio ao envolvimento dele com a detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem, acabou trazendo à tona um histórico envolvendo sua família: a trajetória de sua irmã, que já chegou a ser investigada e processada por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Em uma reportagem exclusiva publicada pelo jornalista David Agape, em seu site A Investigação, consta que a advogada Gisele Cristina de Carvalho, irmã de Marcelo, foi denunciada pelo Ministério Público de São Paulo em 2007, no âmbito de uma investigação que apurava a atuação de uma quadrilha ligada à facção criminosa PCC na região da cidade paulista de São José do Rio Preto.

Segundo a acusação, Gisele exerceria uma função estratégica dentro dessa engrenagem: a de intermediar comunicações entre integrantes da organização criminosa que estavam presos com aqueles em liberdade. Esse tipo de atuação é conhecido no jargão do crime organizado como “pombo-correio”.

As apurações apontavam que a advogada mantinha contato com membros do grupo e repassava informações relevantes, contribuindo para a atuação da facção. Entre os episódios citados está a visita feita por ela, em 2006, a Valdeci Alves dos Santos, conhecido como “Colorido”, apontado como uma das principais lideranças do PCC à época e considerado, por autoridades, um dos nomes mais influentes da organização.

Apesar da gravidade das acusações, o processo se arrastou por 16 anos e terminou sem condenações. Em julho de 2023, a Justiça absolveu todos os réus, incluindo Gisele, por insuficiência de provas. A decisão teve como ponto central uma questão técnica: embora as interceptações telefônicas existissem, elas não foram formalmente transcritas. O trânsito em julgado da ação ocorreu no dia 10 de abril deste ano.

Além desse caso, Gisele também aparece em outro episódio que chamou atenção das autoridades. Em novembro de 2010, ela foi abordada por agentes da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai ao deixar um hotel em Pedro Juan Caballero, cidade conhecida por ser rota do tráfico internacional de drogas.

No veículo em que a irmã de Marcelo Ivo estava havia outros brasileiros, incluindo a advogada Ariane dos Anjos, que tinha mandado de prisão no Brasil e histórico de ligação com integrantes do PCC. Gisele foi liberada por não haver ordem judicial contra ela.

Anos depois, em 2021, Gisele teve outro causo emblemático: ela formalizou sociedade com Fabiana Kelly Pinheiro de Melo, que havia sido presa pela Polícia Federal em 2009 em uma operação contra um esquema de tráfico de drogas que abastecia comunidades dominadas pelo Comando Vermelho no Rio. Embora Fabiana tenha sido alvo de processo disciplinar na OAB, a punição não foi aplicada devido à prescrição.

Procurada, Gisele Cristina de Carvalho negou irregularidades e apresentou diferentes explicações sobre os episódios. Sobre a acusação no caso ligado ao PCC, ela afirmou não ter mantido contato com os investigados e disse não ter ciência de qualquer atividade ilícita. Ela relatou ainda que a ligação com Valdeci Alves dos Santos era oriunda de um advogado mais velho, já falecido, com quem ela trabalhava.

– O Dr. Rinaldi me pedia e eu ia até ele para prestar esclarecimentos sobre os processos – alegou, dizendo também que “não tinha nada” em seus áudios.

Sobre a abordagem no Paraguai, afirmou que estava no local a trabalho, que permaneceu apenas uma noite no hotel e que “não fui expulsa”, mas “apenas não sabia que tinha que passar por um setor”. Disse ainda que não tinha conhecimento de eventuais irregularidades envolvendo Ariane.

Já ao ser perguntada se ela sabia, ao constituir a sociedade com Fabiana, que a sócia havia sido presa pela PF, a advogada respondeu que sim. Disse que conhecia Fabiana desde 2003 ou 2004, por um cliente em comum, e que a parceria foi uma forma de “regularizar” algo que já acontecia informalmente.

– Ela passou por um processo (…). Mas ela está tocando a vida dela – disse.

Fabiana, por sua vez, respondeu que “todos os pontos” foram tratados dentro de seu processo e relatou que foi absolvida com trânsito em julgado. A advogada disse não conhecer o delegado Marcelo Ivo, irmão de Gisele.