João Henrique Catan construiu sua trajetória recente como um dos principais algozes de Reinaldo Azambuja em Mato Grosso do Sul. Agora, porém, o mesmo deputado que batia diariamente no ex-governador parece disposto a reescrever a própria história para se encaixar no novo comando do PL. A coerência que o projetou no eleitorado de direita dá lugar a uma conveniência cada vez mais evidente.
Depois que um corte de programa comentando uma possível aproximação entre Catan e Azambuja viralizou nas redes, o deputado gravou um vídeo de 34 segundos. Em vez de negar com clareza qualquer articulação com o ex-governador, preferiu desviar do assunto central e falar em “candidatura própria do PL ao governo”. O discurso, porém, colide com a realidade: Reinaldo Azambuja, hoje presidente estadual do PL, está alinhado para apoiar o atual governador Eduardo Riedel (PP), e uma candidatura do PL ao governo está, na prática, fora de questão.
Ao insistir em “candidatura própria”, Catan vende ao eleitor um cenário que não existe. O PL, sob a batuta de Azambuja, não se organiza para enfrentar Riedel, mas para sustentá-lo. Ou seja: o deputado usa o discurso de “projeto do PL” enquanto o partido se articula justamente para garantir a continuidade do grupo político que ele mesmo criticou durante anos. A retórica de ruptura virou cortina de fumaça para um acordo que mantém tudo como está.
Nos bastidores, a avaliação é de que Catan tenta salvar o próprio mandato. Ele quer preservar a legenda de Bolsonaro na urna, não romper com o governador em exercício e, ao mesmo tempo, evitar conflito com o novo presidente estadual do partido. Nesse cálculo, sobra pouco espaço para a tal “candidatura própria” e muito para acomodação. O resultado é um parlamentar que troca o enfrentamento direto por silêncio conveniente – e ainda tenta disfarçar isso com discurso institucional.
A mudança de postura é nítida. O deputado que vociferava contra Azambuja e contra o grupo que hoje comanda o Estado simplesmente parou de bater. Não denuncia o alinhamento do PL com Riedel, não questiona o acordo, não expõe contradições. Apenas posa de “pacificador” enquanto se adapta à nova correlação de forças. Para o eleitor que acreditou no Catan aguerrido e intransigente, a mensagem é dura: quando o jogo do poder aperta, a coerência vira moeda de troca.
O que se vê hoje é um João Henrique Catan cada vez mais parecido com aquilo que dizia combater. A crítica radical cedeu lugar à convivência confortável com o ex-governador e seu grupo político. O discurso de independência foi engolido pela necessidade de sobreviver dentro do PL de Reinaldo Azambuja – o mesmo Azambuja que, agora, trabalha para manter Eduardo Riedel no comando do estado, com o silêncio cúmplice de quem preferiu se acomodar em vez de manter a palavra.

