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Lira do petrolão versus Lira 2023: o retrato do país da impunidade

O presidente da Câmara, que agora põe o governo de joelhos, só ampliou seu poder desde que foi pilhado nos desvios bilionários da Petrobras

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Para quem tem um mínimo de memória, ver Arthur Lira mandando e desmandando no Brasil é um acinte. O presidente da Câmara é o retrato de um país que esquece facilmente os malfeitos e perdoa docemente os malfeitores.

Em nova versão, repaginado em vários aspectos, do terno bem-cortado ao rosto que parece recém-saído da harmonização facial, Lira fala grosso sem engrossar a voz e põe o governo de joelhos.

Como na manhã desta segunda-feira, quando apresentou a Lula uma série de condições para que o Planalto tenha vida menos dura no Congresso, Lira posa de dono do pedaço.

Não consigo deixar de lembrar uma apuração de campo que fiz em 2014. Quando a Operação Lava Jato mapeava os elos do doleiro Alberto Youssef com políticos em geral, bati à porta do prédio onde ele mantinha um escritório em São Paulo. Consegui acesso à lista de frequentadores do bunker do doleiro.

Os registros eram de 2010 e de 2011. Auge do petrolão. Lá estava Lira, então deputado federal em início de carreira, entre as muitas excelências que visitavam Youssef (veja imagem abaixo). Embora fosse em 2011 um recém-chegado ao Congresso, tinha herdado a posição do pai, o ex-senador Benedito de Lira, o Biu de Lira, um dos chefes do PP, cujo nome já havia aparecido no mensalão.

Arthur Lira em entrevista à CNN Brasil na manhã desta segunda e, abaixo, no registro da portaria do prédio de Youssef, em 2011
Arthur Lira em entrevista à CNN Brasil na manhã desta segunda e, abaixo, no registro da portaria do prédio de Youssef, em 2011

No sistema da portaria, o hoje presidente da Câmara aparecia como “Arthur Cesar Pereira”, sem o sobrenome mais conhecido. Mas a fotografia e o número do documento não deixavam sombra de dúvida.

A lista se transformaria, depois, em prova contra a clientela ilustre do doleiro. Para além do próprio Lira, nela figuravam outros parlamentares da base do então governo, que se lambuzavam com o dinheiro sujo desviado da Petrobras.

O tempo passou e as provas não bastaram para frear a ascensão do deputado alagoano, sócio majoritário do PP e do Centrão. O movimento, aliás, foi exatamente inverso. De lá para cá, ele só cresceu na constelação de Brasília.

Lira, que até o ano passado era aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro e agora apresenta a fatura para ajudar o governo Lula, é tratado com pompa, circunstância e reverência não só pelo presidente, mas também por juízes das mais altas cortes do Judiciário, por seus pares no Congresso e pelo poder econômico, do qual se aproximou nos últimos anos. É como se o passado recente simplesmente não tivesse existido.

É mais um retrato do Brasil que não muda. No final, a impunidade e o esquecimento sempre prevalecem. Do bolsonarismo ao lulismo, passando por Lira e sua gigante bancada movida pelo fisiologismo, por onde quer que se olhe há poderosos enrolados cujos rolos não os impedem de seguir em cena.

Pobres de nós – e pobres das próximas gerações, que dificilmente conhecerão um país diferente deste.