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Lula diz que se Trump soubesse da “sanguinidade de Lampião”, não o provocaria

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Em meio a uma crise internacional que já deixou centenas de mortos e arrastou o Oriente Médio para uma guerra de proporções imprevisíveis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontrou uma oportunidade para reafirmar seu lugar no cenário global: não como um mediador da paz, mas como uma espécie de xerife moral da periferia, disposto a abençoar aliados incômodos enquanto desafia publicamente a maior potência militar do planeta.

A posição do governo brasileiro, expressa pelo Itamaraty e endossada por Lula, de condenar os “atos de agressão” de EUA e Israel contra o Irã, em si, não seria problemática se viesse acompanhada de um mínimo de coerência histórica. O problema é que o mesmo Lula que agora fala em soberania e integridade territorial mantém um silêncio ensurdecedor — quando não um abraço entusiasmado — sobre as violações sistemáticas desses mesmos princípios cometidas por seus aliados ideológicos.

O Abraço aos Ditadores

Enquanto o embaixador iraniano, Abdollah Nekounam, agradece a posição “valorosa” do Brasil em Brasília, as ruas do Irã seguem ensanguentadas por décadas de repressão a mulheres, jovens e opositores políticos. O regime dos aiatolás, que Lula agora ajuda a legitimar diplomaticamente, é o mesmo que enforca homossexuais em guindastes, que prende mulheres por não usar o véu “corretamente” e que financia milícias terroristas em toda a região. O “direito de defesa” que o presidente brasileiro reconhece a Teerã é o mesmo direito que o regime usa para esmagar sua própria população.

Mas o Irã não é o único destinatário dessa solidariedade seletiva. Ao lado de Lula, em palanques e fotografias oficiais, sorri Nicolás Maduro, o ditador venezuelano que transformou um país rico em petróleo no maior êxodo da história recente da América Latina. Maduro, que prende adversários, persegue a imprensa e fraudou eleções de maneira tão grotesca que até mesmo a esquerda mais branda sente vergonha, encontra no Brasil de Lula um porto seguro para sua sobrevivência política.

Não se trata aqui de defender que o Brasil rompa relações com países por conta de seus regimes internos. A diplomacia pragmática tem seu valor. O que causa espécie é a seletividade: Lula enxerga agressão quando são os EUA bombardeando o Irã, mas não enxerga agressão quando Maduro bombardeia a democracia venezuelana com tanques nas ruas de Caracas ou quando os aiatolás bombardeiam os direitos humanos com enforcamentos públicos em Teerã.

O Xerife do Mundo

Agora, Lula resolveu também encarnar o papel de xerife global, mas um xerife às avessas: aquele que enfrenta o delegado de verdade enquanto protege os bandidos locais. Sua declaração mais recente sobre Donald Trump é uma obra-prima da mistura entre folclore nacional e bravata política.

“Se Trump conhecesse a sanguinidade de Lampião, não faria provocação”, disse Lula, em uma tentativa de parecer viril diante do presidente americano. A referência ao cangaceiro mais famoso do Brasil, responsável por décadas de violência no sertão nordestino, é no mínimo curiosa. Lampião não era um herói popular lutando contra a opressão — era um assassino cruel que estuprava, torturava e decapitava inimigos. Transformar sua “sanguinidade” em uma espécie de credencial de resistência é um exercício de revisionismo histórico digno dos piores momentos da esquerda folclórica brasileira.

Mas a frase revela mais do que Lula gostaria. Ao ameaçar Trump com a “sanguinidade” de Lampião, o presidente brasileiro equipara-se a um fora da lei, a alguém que opera à margem das regras e da civilidade. Em vez de defender a paz, a diplomacia e o direito internacional — que deveriam ser os pilares de qualquer chancelaria que se preze —, Lula opta por um discurso bélico, primitivo e profundamente antidiplomático.

O Medo que Não se Assume

Lula também fez questão de afirmar que “não tem medo de Trump”. A declaração, repetida à exaustão por seus apoiadores, soa mais como uma tentativa desesperada de autoafirmação do que como uma constatação realista. Não se trata de ter medo ou não de uma pessoa; trata-se de compreender o peso de enfrentar a maior potência econômica e militar do planeta em um momento de fragilidade nacional.

O Brasil de Lula precisa do comércio com os EUA, precisa de investimentos americanos, precisa de bom relacionamento com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial — instituições onde Washington tem peso decisivo. Desafiar Trump publicamente, com frases de efeito sobre cangaceiros sanguinários, pode render aplausos nas redes sociais da militância, mas custa caro nos corredores do poder real.

Enquanto Lula posa de durão, os empresários brasileiros rezam para que as tarifas americanas não subam, para que o embargo comercial não se expanda e para que a retaliação iraniana não feche de vez o Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo que move a economia global. Enquanto Lula desafia Trump com referências ao sertão, os exportadores brasileiros de frango, soja e carne suína torcem para que o Departamento de Agricultura dos EUA não encontre um pretexto sanitário qualquer para barrar nossos produtos.

A Hipocrisia como Método

O que se vê, no fim das contas, é uma política externa guiada menos por princípios e mais por afinidades ideológicas. Lula apoia Maduro não porque Maduro seja um democrata — ele não é —, mas porque Maduro é de esquerda. Lula defende o Irã não porque o regime dos aiatolás respeite a soberania alheia — ele não respeita —, mas porque Teerã está no time dos antagonistas dos EUA.

A “sanguinidade” que Lula invoca para assustar Trump é a mesma que ele ignora quando praticada por seus aliados. É a mesma sanguinidade que mantém a Venezuela em frangalhos, que persegue jornalistas no Irã, que enforca adolescentes em praça pública por sua orientação sexual.

Lula não é xerife de nada. É, no máximo, um delegado de fancaria, daqueles que fazem vista grossa para os crimes cometidos pelos compadres e só ameaçam prender os desafetos. Enquanto isso, o mundo real segue em chamas, o Brasil segue perdendo relevância diplomática, e a única coisa que cresce é o repertório de frases feitas para consumo interno.

Se Lampião fosse vivo, talvez ficasse lisonjeado com a comparação. Ou talvez, conhecendo a verdadeira natureza do cangaço, respondesse a Lula com a sinceridade dos sertões: “cabra que se acha valente demais geralmente termina com a cabeça cortada, exibida na escada de uma delegacia”. É o risco de quem resolve bancar o durão sem ter bala na agulha.