A eleição para os governos estaduais não promoveu uma mudança significativa no mapa partidário do país. Mas a definição antecipada em Minas Gerais e Rio de Janeiro e a polarização em São Paulo podem impactar diretamente na disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).
Enquanto os resultados das eleições para o Senado Federal contrariaram institutos de pesquisa e promoveram uma onda bolsonarista na composição da casa legislativa, os governos locais pouco mudaram. Foram reeleitos 12 governadores no primeiro turno, o que garante desde já uma certa estabilidade no mapa partidário dos estados. Outros sete que lutam por reeleição avançaram para o segundo turno.
Foram reeleitos: Cláudio Castro (PL-RJ), Gladson Cameli (PP-AC), Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União-GO), Mauro Mendes (União-MT), Helder Barbalho (MDB-PA), Ratinho Júnior (PSD-PR), Fátima Bezerra (PT-RN), Antonio Denarium (PP-RR), Wanderlei Barbosa (REP-TO), Ibaneis Rocha (MDB-DF) e Carlos Brandão (PSB-MA).
Essa quantidade recorde de reeleições ajudou a manter mudanças bruscas, apesar de alguns desses resultados não estarem previstos nas pesquisas.
Além disso, outros três candidatos foram eleitos governadores já no primeiro turno: Clécio Luís (SDD-AP), Elmano de Freitas (PT-CE) e Rafael Fonteles (PT-PI). Com isso, foi definida desde já a corrida eleitoral em 14 dos 27 estados e no Distrito Federal.
Esse cenário de ampla reeleição e de manutenção de grupos políticos é o que faz o cientista político José Paulo Martins Júnior, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), indicar que não houve uma mudança expressiva nos estados.
“Não creio que tenha tido uma grande mudança no mapa dos Estados. [Tivemos] reeleição em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, segundo turno com o ex-governador [Eduardo Leite] no Rio Grande do Sul. Santa Catarina acho que talvez surpreenda um pouco a chegada do PT no segundo turno. Na Bahia, duas forças muito tradicionais (União Brasil e PT) [no segundo turno]. PT [ganhando] no Ceará. [Além da] força do Flávio Dino no Maranhão, a força dos governadores estaduais que estavam buscando a reeleição… Então, acho que não dá para perceber uma grande mudança”, disse o especialista.
São Paulo, estado-chave da eleição
Para ele, a grande marca até aqui é a derrota do PSDB em São Paulo. O partido que governou o estado por 28 anos sequer avançou para o segundo turno com Rodrigo Garcia. A disputa ficou entre o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o petista Fernando Haddad.
“Talvez o mais significativo de tudo seja a derrota do PSDB, especialmente a derrota do PSDB em São Paulo, que era ainda um grande reduto do partido no Brasil, e uma diminuição do partido em todo o território nacional. O PSDB encolheu bastante. Desde 2014 já vinha passando pelo processo de encolhimento e se consolida agora com essa eleição e a derrota do PSDB em São Paulo”.
Para ele, o segundo turno de São Paulo terá impacto no segundo turno presidencial, entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Bolsonaro conseguiu puxar o Tarcísio muito bem. A chapa dos dois funcionou muito bem em São Paulo. O desempenho do Haddad não ficou muito distante daquilo que muitas pesquisas indicavam. É uma disputa central. É o estado com o maior número de eleitores, importantíssimo para a eleição presidencial. Entendo que o Alckmin, como companheiro da chapa do Lula, deva trabalhar no sentido de levar o PSDB a apoiar a candidatura do Fernando Haddad. Agora, há um embate histórico no estado de São Paulo entre PT e PSDB, muitas pontes queimadas, mas o PSDB encolheu muito. O PSDB vai adotar uma subordinação ao bolsonarismo ou uma aproximação do PT? Acho que não dá para responder isso neste momento. […] Sinceramente, não acredito que vai haver essa adesão formal do PSDB ao candidato Fernando Haddad não, mas também é só especulação.”
O que farão Zema e Cláudio Castro?
Apesar da vitória acachapante de aliados de Bolsonaro em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, o pesquisador desconfia do empenho de Zema e Castro na reeleição do atual presidente no segundo turno, em especial por entender que eles podem se lançar à presidência em 2026. Martins acredita que, no primeiro turno, os candidatos foram importantes no desempenho de Bolsonaro.
“Apesar de haver o voto Lula-Zema, o Zema é um candidato muito mais identificado com o Bolsonaro, então o Zema puxou o Bolsonaro em Minas Gerais. Assim como no Rio, o Castro puxou o Bolsonaro. Ao mesmo tempo, tanto [Alexandre] Kalil quanto [Marcelo] Freixo, em Minas e no Rio de Janeiro, não tiveram força suficiente. Eu chego a acreditar até que tenham funcionado mais como uma âncora para o Lula nesses estados. Lula não conseguiu avançar por conta da disputa pelo governo estadual. Agora, no segundo turno, esses dois políticos estão fora da disputa.”
“Acho que a questão […][é] o que farão Zema e Castro no segundo turno uma vez que eles já estão eleitos. Vai haver um empenho desses políticos na eleição de Bolsonaro ou eles vão ficar mais na deles? […] O horizonte que se abre para eles é de uma disputa maior, especialmente o Zema […], sem dúvida, é alguém que pode almejar a Presidência da República na próxima eleição ocupando essa faixa mais conservadora que hoje está ocupada pelo Bolsonaro. Então não sei se para o Zema é interessante uma vitória do Bolsonaro. Eu tenho que fazer a mesma leitura aqui para o Rio de Janeiro”, completou.
