A revelação de que a advogada Roberta Maria Rangel, mulher do ministro Dias Toffoli, já integrou a sociedade de um escritório que hoje defende o dono do Banco Master adicionou um novo capítulo à controvérsia em torno do caso Daniel Vorcaro.
Reportagens desta terça-feira informam que Roberta Rangel passou a fazer parte, em 2021, do quadro societário do escritório Warde Advogados, comandado por Walfrido Warde. Hoje, o próprio Warde é um dos advogados de defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, alvo de investigação e de medidas judiciais que resultaram em sua prisão.
De acordo com registros do Cadastro Nacional de Sociedade de Advogados (CNSA), o escritório tinha cerca de duas dezenas de sócios na época em que a esposa de Toffoli ingressou na banca. Atualmente, o nome dela não aparece mais na relação de integrantes, segundo consulta ao site do próprio Warde Advogados.
A informação sobre a antiga sociedade ganhou peso político porque o processo em que a defesa de Vorcaro contesta a operação da Justiça Federal de Brasília foi justamente parar no gabinete de Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal. Na semana passada, o ministro determinou sigilo máximo sobre o caso, restringindo drasticamente o acesso a informações no sistema do STF — nem mesmo dados básicos do processo ficaram disponíveis ao público.
Na prática, o quadro combina três elementos sensíveis: um banco em situação crítica, um banqueiro investigado, e um ministro do Supremo que decide impor sigilo absoluto a um processo em que o cliente é defendido por um escritório ligado, no passado recente, à sua própria esposa. Juristas e analistas veem aí terreno fértil para questionamentos sobre conflito de interesses e sobre a necessidade de transparência reforçada em casos de grande impacto financeiro e político.
Não há, até o momento, qualquer decisão judicial apontando ilegalidade na atuação de Toffoli ou de Roberta Rangel. A antiga sociedade com o Warde Advogados era pública e registrada na OAB, e a advogada não integra mais o quadro do escritório. Ainda assim, a coincidência cronológica – associação em 2021 e, poucos anos depois, o mesmo escritório na linha de frente da defesa do dono do Banco Master – alimenta o debate sobre os limites éticos que deveriam orientar a atuação de ministros do STF em processos que tocam, direta ou indiretamente, o círculo profissional de seus familiares.
Enquanto o Supremo mantém o sigilo e a defesa de Vorcaro tenta reverter decisões da Justiça Federal, o caso Banco Master segue pressionando não apenas o sistema financeiro, mas também a imagem de independência do Judiciário. A pergunta que fica, para muitos observadores, é se o STF dará uma resposta convincente sobre a necessidade desse nível de segredo num processo em que já há, à vista de todos, uma relação profissional pretérita entre a família do relator e um dos advogados do principal interessado.

