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Na Bulgária o povo enfrentou o poder e venceu. Aqui, o brasileiro esperou por Trump e perdeu

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A Bulgária amanheceu lembrando ao mundo uma lição antiga: quando a corrupção vira rotina, a resposta mais poderosa não vem de discursos — vem das ruas. Depois de semanas de protestos e pressão popular, o Parlamento búlgaro aceitou a renúncia do governo liderado por Rosen Zhelyazkov, num recado direto de que a paciência social tem limite quando o Estado parece servir a si mesmo.

O simbolismo é duro para quem observa de fora — e ainda mais duro para quem observa do Brasil. Porque na Bulgária, não houve salvador estrangeiro, não houve “solução importada”, nem a confortável fantasia de que alguém de fora viria “consertar” o país. Houve, sim, povo na rua, custo político, e um governo que caiu sob a evidência de que a legitimidade não se sustenta quando a sociedade enxerga impunidade e apodrecimento institucional.

Aqui, porém, o roteiro tem sido o inverso: em vez de mobilização consistente, parte do debate público preferiu apostar na esperança terceirizada — um “deus ex machina” chamado Donald Trump. E o choque veio agora: os EUA retiraram as sanções contra Alexandre de Moraes, num recuo formalizado pelo Tesouro americano e noticiado por agências internacionais.

Para quem enxerga Moraes como símbolo de abusos — censura disfarçada de “moderação”, punições desproporcionais, atropelos de garantias e um Judiciário cada vez mais político —, a decisão cai como um balde de água fria. Não importa se a justificativa será “técnica”, “diplomática” ou “estratégica”: o recado prático é que o Brasil continua sozinho com seus próprios conflitos.

A Bulgária derrubou um governo porque a sociedade decidiu que não dá mais. O Brasil, em larga medida, segue esperando que um presidente estrangeiro faça o que nós mesmos evitamos fazer: cobrar, pressionar, reagir, exigir limites e responsabilização. Democracia não é torcida. Soberania não é delegação. E liberdade não se conquista com fé em Washington — se conquista com povo de pé em casa.