A visita de Lula à Favela do Moinho, em São Paulo, em junho, revelou mais do que um gesto de inclusão social: expôs uma proximidade preocupante com estruturas criminosas consolidadas. No centro dessa articulação estava Alessandra Moja Cunha, apontada como uma das chefes do tráfico local e presidente da ONG Associação da Comunidade do Moinho, entidade com ligações diretas com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Seu irmão, Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moinho, é identificado como o principal líder da facção na região central da capital.
Não se trata de suposições. O histórico criminal de Alessandra é conhecido: em 2005, ela foi condenada por homicídio, cumprindo pena em regime semiaberto. Mais recentemente, em 2023, a sede da ONG foi utilizada pelo PCC para armazenamento de drogas — a Polícia Civil apreendeu dezenas de porções de cocaína, crack e maconha durante a operação “Salus et Dignitas”.
Além disso, Alessandra mantém um histórico de interlocução direta com órgãos do governo. Entre novembro de 2024 e junho de 2025, ela — ou sua filha, Yasmin Moja — participou de pelo menos cinco reuniões com integrantes da Secretaria-Geral da Presidência e secretarias de Justiça, Direitos Humanos e Gestão. A proximidade institucional atingiu seu ponto mais polêmico quando o ministro Márcio Macêdo (PT) se reuniu com Alessandra dois dias antes da visita presidencial, supostamente para definir a agenda do evento.
O episódio evidencia um problema profundo: quando o Estado escolhe dialogar com líderes ligados ao crime organizado, ele legitima poderes paralelos e fragiliza a presença do governo nas periferias. A Favela do Moinho funcionava como um verdadeiro quartel-general do PCC, abrigando antenas para interceptação de comunicações da Polícia Militar e controlando a região com mão de ferro. Aplaudir a permanência de uma torre de comunicação no local, como chegou a fazer Lula, é gesto que beira a complacência simbólica com o crime armado.

