Opinião | Os irmãos Batista talvez sejam os empresários mais “sortudos” do Brasil. Mas, em Brasília, sorte raramente anda sozinha. Costuma vir acompanhada de acesso, influência e decisões públicas tomadas no momento exato.
A sequência chama atenção.
A Ypê, uma das marcas de detergente mais populares do país, teve produtos suspensos pela Anvisa justamente em um mercado no qual disputa espaço com a Minuano, empresa do grupo dos Batista, aliados de Lula. O caso poderia ser apenas regulatório, mas coincidências entre poder econômico e poder político nunca passam despercebidas no Brasil.
Nos ovos, o roteiro se repetiu. Em janeiro de 2025, os Batista compraram 50% da Mantiqueira, maior produtora de ovos do país. Poucas semanas depois, o governo publicou uma regra exigindo a identificação individual dos ovos vendidos sem embalagem primária. Para pequenos produtores, a medida poderia significar mais custo e dificuldade. Para a Mantiqueira, que já afirmava cumprir a exigência antes da obrigatoriedade, o obstáculo era menor. Após a repercussão negativa, o governo voltou atrás e revogou a medida antes mesmo de ela entrar em vigor.
Na energia, a coincidência foi bilionária. Em junho de 2024, os irmãos Batista compraram 13 usinas da Eletrobras por até R$ 4,7 bilhões. Apenas três dias depois, o governo editou uma medida provisória ligada à crise da Amazonas Energia, empresa com dívida acima de R$ 10 bilhões, com potencial de repasse de parte dos custos à conta de luz dos brasileiros.
O histórico político dos Batista torna tudo ainda mais sensível. Em 2017, Joesley Batista delatou Lula e Dilma, afirmando ter destinado US$ 150 milhões aos dois. Anos depois, os irmãos contrataram Cristiano Zanin, advogado de confiança de Lula. Meses mais tarde, Lula indicou Zanin ao STF. A multa bilionária da J&F, antes estimada em mais de R$ 10 bilhões, acabou suspensa e passou a ser discutida em valores menores.
Oficialmente, cada episódio pode ter uma explicação técnica ou jurídica. Politicamente, porém, a sequência desenha um retrato incômodo: os Batista avançam, o Estado se movimenta, concorrentes se apertam e o brasileiro fica com a fatura.
No fim, a pergunta não é apenas se os irmãos Batista têm sorte. É por que, no Brasil de Lula, essa sorte parece funcionar com tanta precisão.
Por: Karyston Franco
