A Polícia Federal deu um passo estratégico para desvendar o que pode ser um dos maiores esquemas de fraude financeira do país. Com a mudança na relatoria do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), a corporação solicitou ao ministro André Mendonça autorização para cruzar os dados da investigação sobre o Banco Master com as provas do escândalo de desvios bilionários do INSS. O objetivo é identificar se as duas tramas, até então investigadas em separado, compartilham a mesma estrutura criminosa e os mesmos beneficiários .
O Pedido da PF e a Mudança de Comando no STF
O pedido foi formalizado durante uma reunião de quase duas horas entre Mendonça e delegados da PF na última segunda-feira (23). O encontro marcou o início de uma nova fase na apuração, após o ministro assumir o caso herdado de Dias Toffoli, que deixou a relatoria em meio a suspeitas de conexões com o dono do banco, Daniel Vorcaro .
A principal suspeita dos investigadores é que fundos de investimento geridos pelo Banco Master podem ter sido alimentados por recursos descontados indevidamente de aposentados e pensionistas do INSS. Estima-se que as fraudes contra a Previdência Social ultrapassem os R$ 6 bilhões . O cruzamento de dados, segundo a PF, poderá revelar “estruturas financeiras comuns, operadores recorrentes e eventuais fluxos de recursos compartilhados” entre os dois esquemas .
O Novo Ritmo de Mendonça
Desde que assumiu, André Mendonça sinalizou uma guinada na condução do processo. Diferentemente de Toffoli, que havia restringido o acesso às provas e indicado quais peritos poderiam atuar, o novo relator devolveu a autonomia à Polícia Federal. Ele autorizou a retomada do “fluxo ordinário” das investigações, permitindo que cerca de 100 dispositivos eletrônicos apreendidos (incluindo celulares e computadores) sejam analisados sem as limitações anteriores .
“A adoção do fluxo ordinário de trabalho pericial da instituição e a realização de diligências ordinárias estão autorizadas”, decidiu Mendonça, em um despacho que foi visto pelos investigadores como um sinal de que as apurações serão aceleradas . Além disso, o ministro reduziu o grau de sigilo imposto por Toffoli e determinou que as provas não ficassem mais retidas na Procuradoria-Geral da República (PGR), mas sim sob custódia da própria PF .
A Conexão com a CPMI do INSS
Paralelamente ao cruzamento de dados, Mendonça também autorizou que as informações da Operação Compliance Zero (que investiga o Master) sejam compartilhadas com a CPMI do INSS. Na última sexta-feira (20), agentes da PF transferiram para a comissão parlamentar, no Senado, um vasto material que inclui quebras de sigilo fiscal, bancário e telemático de Daniel Vorcaro .
A decisão de Mendonça reverteu uma determinação anterior de Toffoli, que mantinha esses dados sob a guarda exclusiva da presidência do Congresso. Apesar da transferência, parlamentares da CPMI relataram que ainda não tiveram acesso ao conteúdo, que é estimado em dezenas de terabytes de informações .
No entanto, o banqueiro não tem colaborado com o Legislativo. No mesmo dia da reunião de Mendonça com a PF, Vorcaro foi dispensado pelo ministro de depor na CPMI. A defesa do banqueiro alegou constrangimento em voos comerciais, e Mendonça vetou o deslocamento em jatinho particular, citando risco de fuga. A decisão de não obrigar o investigado a depor baseia-se na jurisprudência do STF, que garante ao investigado o direito de permanecer em silêncio .
Frentes de Investigação e Próximos Passos
O inquérito do caso Master não se limita à conexão com o INSS. A PF também está na fase final da apuração sobre a tentativa de venda do Banco Master ao BRB (Banco de Brasília). A suspeita é de que a negociação tenha sido baseada em informações forjadas sobre ativos financeiros, com valores inflados irregularmente. O relatório dessa etapa deve ser concluído até meados de março e pode resultar em pedidos de indiciamento .
Outra linha que ganha corpo é a investigação sobre a suposta contratação de influenciadores digitais para atacar o Banco Central e autoridades após a liquidação da instituição, ocorrida em novembro de 2025. A PF analisa se houve uma campanha coordenada para pressionar órgãos reguladores. Estima-se que cerca de 40 perfis de influenciadores estejam sob análise .
Há ainda uma apuração sobre possíveis ligações do Master com fundos suspeitos de lavagem de dinheiro para o crime organizado, em um cruzamento com a Operação Carbono Oculto, que investiga adulteração de combustíveis .
Com a nova postura de André Mendonça, a PF prevê um prazo de um a dois meses para consolidar as conclusões sobre as conexões entre os casos e apresentá-las ao STF. Para os investigadores, o caso Master se consolida como um dos inquéritos mais complexos em tramitação na Corte, justamente pelo seu potencial de revelar um ecossistema de fraudes interligadas que vai do sistema financeiro ao coração da Previdência Social.

