A Venezuela vive um ambiente onde até mensagens privadas podem resultar em prisões. A perseguição política deixou de se limitar às ruas e passou a agir dentro das conversas digitais, monitorando cidadãos e punindo qualquer crítica ao regime de Nicolás Maduro.
O caso mais recente é o da médica Marggie Orozco, de 65 anos, recentemente sentenciada a três décadas de prisão por compartilhar um simples áudio de WhatsApp com críticas à situação do país e um apelo para que vizinhos participassem das eleições presidenciais de 2024.
A prisão de Marggie Orozco
A sentença contra Orozco foi proferida em 14 de novembro por um tribunal penal do estado Táchira. A médica foi condenada por “traição à pátria”, “incitação ao ódio” e “conspiração”.
A denúncia partiu de uma representante dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), estrutura comunal controlada pelo chavismo e responsável por distribuir alimentos subsidiados.
O sistema de comunas na Venezuela funciona também como uma rede de inteligência que se infiltra nas residências e vizinhanças.
Após ouvir o áudio em um grupo de WhatsApp, a integrante do CLAP acionou as autoridades.
Orozco foi detida em 5 de agosto de 2024, em San Juan de Colón, poucos dias após o conturbado processo eleitoral que garantiu a terceira reeleição de Maduro. Desde então, enfrentou um processo considerado irregular por organizações de direitos humanos: falta de defesa adequada, ausência de garantias mínimas e uso político da justiça.
Sua saúde se deteriorou rapidamente. Em setembro, sofreu um infarto dentro da delegacia da Polícia Nacional Bolivariana.
Mesmo assim, foi transferida para o Centro Penitenciário de Occidente, onde permanece. A família relata que ela enfrenta depressão crônica e o desgaste emocional acumulado pela perda de dois filhos.
A médica não é um caso isolado. Assim como as jovens empreendedoras condenadas por fabricar camisetas críticas ao regime, vítimas de um “cliente” que era, na verdade, um agente infiltrado.
A Venezuela tem quase 900 presos políticos
A Venezuela vive uma crise de liberdades civis aprofundada pela combinação entre vigilância tecnológica, delação comunitária e criminalização da opinião.
Aplicativos promovidos pelo governo, como o VenApp, coletam dados pessoais e geolocalização sob o pretexto de gerenciar serviços públicos.
Segundo denúncias, VenApp funciona como ferramenta de controle social. Aliados do regime são incentivados a registrar opositores, protestos e mensagens críticas, criando uma cultura de vigilância permanente.
Após as eleições de 2024, que resultaram em protestos e mais de 2.400 detenções, Maduro pediu explicitamente que seus apoiadores denunciassem “fascistas”, termo usado para se referir a qualquer manifestação contrária ao governo.
Hoje, segundo a ONG Foro Penal, o país tem ao menos 882 presos políticos.
E o número cresce à medida que o regime amplia o alcance da repressão para dentro das redes sociais, mensagens privadas e até grupos de bairro.

