Com as pesquisas de intenção de voto falhando, o que balizará as campanhas no segundo turno? À Sputnik Brasil, o analista político Sérgio Praça explicou o dilema dos candidatos: como saber se a sua campanha está progredindo ou fracassando?
Com o fim do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, os institutos de pesquisa de intenção de votos foram jogados no epicentro de um furacão, com as redes sociais ebulindo em críticas e até mesmo o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), se posicionou.
Em entrevista nesta segunda-feira (3), ele defendeu que o Congresso Nacional vote “o quanto antes” o projeto para regulamentar as pesquisas eleitorais. Para ele, as empresas de pesquisa não devem ser usadas para conduzir o eleitorado. Sua ideia é criar “medidas legais que punam os institutos que erram demasiado ou intencionalmente para prejudicar qualquer candidatura”.
As diretoras do Ipec e Datafolha, em entrevista ao jornal O Globo, atribuíram as divergências dos resultados de seus levantamentos eleitorais à possível migração de votos e à relação tensa entre os pesquisadores e os eleitores conservadores.
O fato é que o resultado das eleições ficou distante do que previam os institutos de pesquisa. Entretanto, a democracia brasileira se acostumou a moldar suas campanhas políticas de acordo com as indicações de voto. Agora, a menos de 30 dias do pleito que decidirá o futuro chefe de Estado do país, paira um dilema sobre as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro.
Na avaliação do cientista político Sérgio Praça, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, a questão é delicada: “Embora seja ruim com as pesquisas, é pior sem elas“. O especialista explicou que será “difícil voltar a confiar nelas tão cedo, mas, por outro lado, não existe mecanismo para saber como determinada campanha está indo”.
A questão envolvendo o sucesso das campanhas presidenciais, em especial de Lula e Jair Bolsonaro, baseava-se nas pesquisas de aprovação e rejeição de cada candidato. Bolsonaro, por exemplo, tinha um governo amplamente rejeitado nas pesquisas. Entretanto, quase todos os seus ministros foram eleitos, como Damares Alves, Sergio Moro, Marcos Pontes e até Eduardo Pazuello, que ficou à frente do Ministério da Saúde durante uma pandemia que vitimou mais de 700 mil vidas.
No entendimento de Sérgio Praça, em cargos como senador, deputado e governador, há uma tendência de as pessoas deixarem para decidir em cima da hora. “Virada em candidatura de governador e senador é esperado, mas, para presidente, menos. O que explica a discrepância entre as pesquisas e as urnas é uma série de fatores”, disse ele.
A saber, conforme descreveu o especialista da FGV, “as pesquisas usam um senso desatualizado; tem pessoas que evitam responder às pesquisa porque não confiam; e tem pessoa que realmente muda de voto”.
Ainda assim, para ele, apesar da expressiva votação de Bolsonaro verificada nas urnas e negligenciada pelas pesquisas, “o presidente parte de uma desvantagem, e precisa ir atrás de voto”.
“O Lula está bem, em primeiro. Por outro lado, o Bolsonaro tem a caneta da presidência, através da qual ele pode fazer muita coisa. Ele vai liberar uma parcela de auxílio, e pode aumentar os gastos da máquina pública”, comentou.
Nesse sentido, explica o especialista, o apoio (ou não) dos demais candidatos pode, efetivamente, fazer diferença para a definição do vencedor. Embora ache que Ciro Gomes (PDT) pode ter desgastado seu capital político com ambos eleitorados em disputa, ele aponta que Simone Tebet e o seu partido, o MDB, podem ter um peso no segundo turno.
“O que importa é a Tebet. Ela fez uma campanha brilhante, e é uma política de boa qualidade, acima da média. A decisão é dela e importa mais do que o Ciro e qualquer outro candidato. Ela, por outro lado, pode ajudar qualquer um dos lados”, concluiu Sérgio Praça.
